Eu tenho o sorriso de um motorista de ônibus.
Sei, deve parecer loucura, ou no mínimo algo irrelevante, mas achei que devia dizer que tenho o sorriso de um motorista de ônibus. Não, nada de devia, queria, quero. Dever é chato. Querer é vôo. Então, agora quero repetir e repito: tenho o sorriso de um motorista de ônibus. Não sei seu nome, nem ele sabe o meu. Nos vemos quando temos que nos ver, sem ter que forçar nada pra isso, só nos vemos quando temos que nos ver. Ele é grisalho e um pouco careca, deve ter por volta de uns 50 anos.
Você deve tá se perguntando como que eu, sem nenhum atributo especial, acabei ganhando o sorriso de um motorista de ônibus. Não sei exatamente como. Mas foi mais ou menos assim: depois de nos vermos com uma certa frequência começamos a acenar levemente com a cabeça até finalmente a sorrir. Algumas palavras trocadas casualmente, pergunto se ele vai bem, ele comenta meu novo corte de cabelo, me despeço ao descer, ele buzina amigo.
Gosto do jeito cavalheiro dele, da voz baixa, dos traços leves, não sei do que ele gosta em mim. Tem dias que não tô bem, mas me esforço e lhe devolvo um sorriso sem dentes. Tem vezes em que ele pergunta como estou e resmungo exausta: só tô um pouco cansada. Mas com delicadeza, que ele merece.
Não quero nada dele. E tava pensando hoje após descer do ônibus no quanto isso é bonito. Não quero nada dele, nem ele quer nada de mim. Nem dinheiro, nem sexo, nem amor, nem sequer amizade. Só tenho o sorriso dele ao me ver e ao se despedir de mim. Mas me basta tanto, não quero nada dele além do sorriso e da voz terna me perguntando se tô bem.
Gratuito, ele sorri pra mim porque ainda nos encontramos, e eu sorrio pelo mesmo motivo. Gratuito, leve, lindo. Gratuito assim como esse texto. Não quero que você leia e me julgue a escritora do próximo século, não quero atenção, não quero nada além de guardar o sorriso do motorista. Esse texto é pra mim daqui a um tempo. É pra alguma versão de mim ler e lembrar que ainda há carinho gratuito, sorriso sincero. Por mais que aí, no futuro, onde você está - meu novo eu - esteja difícil lembres que há sempre um motorista de ônibus grisalho com jeito de cavalheiro querendo sorrir pra ti. E isso basta, pra sempre basta.
(Você que me lê pode sorrir agora também. Ou antes, não sei. Te dou um segredo e você me dá um sorriso, pode ser? Guardo comigo os sorrisos sinceros. Levo o teu comigo se assim for.)
Nossa nada a ver. Porque colocaram esse nome?
-cymmfl-